MINHAS PRÓXIMAS CORRIDAS

terça-feira, 24 de setembro de 2013

A ENDORFINA AJUDA QUEM “CEDO MADRUGA” - Crônica publicada no blog Vamos Correr, do meu amigo Julius Carvalho (24/09/2013)





E de um lado e de outro estão aqueles que ficam de fora observando o que nós, loucos que correm, fazemos: “Você é muito animada!”, “Queria ter sua disposição...”, “Você é um exemplo!” ou “Ah! Mas eu não tenho tempo!”, “Só de ver suas postagens/fotos fico cansado!” “Ah, mas eu trabalho o dia inteiro!”.

Sou animada? Somos animados, corredores? Bom, de fato, acordar cedinho todos os dias para treinar às 6h da “madrugada” tem sua gota de sacrifício. O corpo, ainda sonolento, pede para ficar na cama. Afinal, nós também trabalhamos o dia todo. Eu, por exemplo, dou aulas até as 22h20 todas as noites. Chego a minha casa tarde e, até dormir, quase que o amanhã já virou hoje (e muitas vezes vira)... Durmo pouco? Durmo! Mas é o horário que eu tenho para treinar e, além do mais, ver o amanhecer todos os dias é algo que me dá um prazer imenso! Não saio emburrada, reclamando, xingando o porteiro... Saio querendo pegar o sol se espreguiçando, saindo de dentro do mar... Posso até ir cansada, mas vou feliz... E não vou sozinha; há uma turma “animada” que também faz isso: o movimento de caminhantes, corredores e ciclistas começa cedinho pela orla. Mesmo antes de o dia clarear completamente...

Cada uma segue na sua atividade física... Mais ou menos uma hora depois de muito suor, esforço e às vezes até um pouquinho de dor, voltamos para “começar” o dia. E aí que está um dos bens que o exercício cedinho provoca: começamos o dia já endorfinados. Enquanto muitas pessoas ainda estão com as marcas do travesseiro impressas no rosto, nós já estamos a mil... A endorfina corre desenfreada por nosso organismo e, paradoxalmente, por mais que haja algum cansaço, sentimos um bem-estar inexplicável (não para a ciência, é claro!)... Talvez seja isso que os outros chamam de ser “animado”. A endorfina realmente nos anima...

Há também a galerinha que treina ao fim do dia – à tardinha ou à noite... Já fiz isso, quando o trabalho exigiu. Mas não nego que minha preferência é por treinar logo cedo... Ao fim do dia tem o agravante do cansaço do trabalho, mas não dá para negar que vamos dormir menos estressados, porque a danada da endorfina vem a qualquer hora, desde que seja “estimulada”... Treinamos até com o sol a pino se for necessário. E para alguns de fato é...

Esse é o barato da corrida, da atividade física em geral. Não importa a qual hora do  dia ela é praticada, o bem que ela promove para a mente é incalculável (porque o que ela faz para o corpo todos já sabem). Importa é que cada um descubra o “seu” horário preferido. Ou, se isto de escolher o horário for um luxo para poucos, que cada um tente se adaptar ao horário que tem disponível. Mesmo que seja preciso fazer um pequeno sacrifício para pular da cama cedo (ou ir para ela mais tarde), mesmo que não dê para ir feliz como eu vou (porque o sol aí da sua terrinha não sai de dentro do mar, ou porque à noite não tem sol nascendo), mesmo que vá emburrado e reclamando: pelo menos vá! Quem sabe (e nós corredores sabemos) – assim, por acaso, sem querer – você volte para casa assoviando uma boa música, sorrindo para quem passa e dando bom dia ou boa noite ao porteiro...




segunda-feira, 9 de setembro de 2013

COM GOSTINHO DE CHOCOLATE - Crônica publicada no blog Vamos Correr, do meu amigo Julius Carvalho (09/09/2013)



Todo lugar tem sua corrida especial, aquela que mobiliza mais pessoas, que faz parte da tradição, que possui uma aura diferente. São Paulo tem a São Silvestre; Rio de Janeiro tem a Maratona da Caixa; Belo Horizonte tem a Volta Internacional da Pampulha; Vitória e Vila Velha têm as Dez Milhas Garoto....
E, para correr a corrida do chocolate, pessoas que nunca correram se preparam; os já corredores dão maior atenção ao treinamento; corredores de fora agendam viagem... Muitos capixabas crescem vendo a Corrida da Garoto passar pelas ruas das cidades; ser anunciada na TV, em outdoors. Algumas pessoas despertam o desejo de participar; outras prometem: "Um dia ainda corro esta corrida..."
E, quando a data vai se aproximando, a tal aura que mencionei vai se mostrando: correr a Garoto, para o capixaba, é como ter um certificado diferenciado; atravessar a Terceira Ponte a pé é oportunidade rara (não muito em tempos de manifestações, é verdade); tirar a foto na ponte com o Convento ao fundo é um comprovante de participação...
E é bonito participar de um evento como este: desde o momento da abertura das inscrições até o grande dia... O treinamento, a expectativa, a entrega dos kits, o jantar de massas, a concentração antes da prova; a adrenalina da largada, a endorfina da chegada...
Há 3 anos, ainda morando em Minas, vim correr a Garoto e, na época, não tinha noção do que ela significava para a região... Lembro-me de ter ido ao Convento da Penha e de lá "conhecer" a Terceira Ponte: parecia-me longa demais, a subida dava um pouco de medo; mas aquele cenário lindo me encantou... Não podia imaginar que seis meses depois eu estaria morando em terras capixabas e que, logo, poderia sentir as emoções de esperar e vivenciar a corrida completa...
É emocionante e às vezes sofrido subir a ponte; mas, para mim, o mais comovente é a chegada à Praia da Costa, onde o público nos aguarda, aplaude, incentiva. Gostoso demais, quando, ali, já indo para o fim da prova, cansados, às vezes, ouvimos nosso nome e um incentivo particular... Já aconteceu de um aluno gritar: "Vai, professora, vai!"
Quando saímos da orla, o público diminui e, então, é hora de buscarmos nosso torcedor íntimo, aquele que fica ali dentro da nossa cabeça dizendo: "Força! Está acabando! O pior já passou!" Ou aquele que fica ali no coração, querendo se emocionar, querendo fazer as lágrimas da superação descer... E o filminho da preparação, do desejo, do sonho começa a se passar no nosso interior... Enquanto isso, mesmo cansados, nós seguimos... E nos aproximamos do quilômetro 14 na Castelo Branco... Viramos à esquerda na Luciano das Neves, por poucos metros; desembocamos na Henrique Moscoso e encontramos o último posto de hidratação. Hora do derradeiro abastecimento e de concentração, porque logo o quilômetro 15 se aproxima... E aí nosso torcedor interno nos diz: "Só falta um quilômetro! Está acabando! Está acabando!" Mais uma curva à esquerda e outra à direita e pronto: eis que estamos na reta da Garoto... Agora é correr com o coração. É o momento em que não sabemos onde encontramos força, mas ela aparece... E a gente vai: metro a metro, preparando para avistar a linha de chegada, a arquibancada, o povo aplaudindo... E, com lágrimas nos olhos e/ou com sorriso escancarado, com sprint final e/ou com superação de dor e cansaço, entramos no corredor ladeado pelas arquibancadas lotadas, e os metros finais são percorridos quase que anestesicamente...
E, então, é passar pelo tapete de cronometragem e comemorar! Qualquer corrida merece e deve ser comemorada. Não somos quenianos em busca do primeiro lugar. E, por mais que tracemos nossas metas (sim, precisamos delas), a decepção de não alcançá-las não pode ser maior do que a comemoração de uma corrida que foi completada. Somos corredores amadores, corredores amantes da corrida. Não ganhamos o pão de cada dia correndo (pelo contrário, gastamos o pão de cada dia correndo), por isso devemos ir pela festa, pela saúde, pelo não ao sedentarismo... Devemos ir pelo prazer de colocar a medalha no peito e dizer: "Sim! Eu corri as Dez Milhas Garoto!!!"

sábado, 7 de setembro de 2013

IMPRESSÕES COLORIDAS DE UMA MANHÃ CINZENTA - Crônica publicada no blog Vamos Correr do meu amigo Julius Carvalho (23/08/2013)



Era para ter sido uma manhã de domingo daquelas em que só se sai da cama quando o corpo já não aguenta mais ficar deitado... Chovia lá fora... Fazia um friozinho, daqueles bem tranquilos que se fazem aqui em terras capixabas... Uma manhã perfeita para ler um livro, assistir a um bom filme ou, simplesmente, dormir...
Mas havia um encontro marcado; um evento a ser realizado... E enquanto a maioria das pessoas nem pensava em se levantar, outras já se agitavam... Espalhadas por diferentes lugares, elas se vestiam e se preparavam para ir ao encontro umas das outras... Algumas já amigas de velha data... Outras apenas conhecidas... E mesmo as que não se conheciam estariam reunidas no mesmo local, com o mesmo objetivo.
E não houve chuva ou tempo feio que segurasse essas pessoas em casa. Foi se dando uma aglomeração em plena rua. Elas – quase todas – vestiam a mesma camisa, calças ou bermudas parecidas e, nos pés, eram tantas cores diferentes e vivas que parecia haver uma aquarela espalhada pelo chão...  
Esbanjavam uma alegria contagiante. Riam, abraçavam-se, tiravam tantas fotos que mais pareciam querer eternizar aquele momento. Eram de idades variadas, profissões variadas, gostos variados...
De repente, começaram a se mover na mesma direção. E iam correndo, tomando as ruas da cidade... Algumas concentradas, mais rápidas... Outras em bate-papo com o colega do lado... Ainda, aquelas que seguiam o fluxo, ao ritmo do som que ouviam... Subiam e desciam morros, faziam expressão de esforço, mas seguiam... Ficavam cansadas, davam uma pequena caminhada, mas seguiam... Algumas sentiam dores, mas seguiam... Foram se apoderando do asfalto. Iam, às vezes, quase que em fila indiana, em respeito aos carros que vinham... Algumas outras pessoas lhes entregavam  água e lhes tiravam fotos e mais fotos... E elas seguiam...
Parecia que buscavam alguma coisa...
Foi quando se depararam com um horizonte de águas salgadas... Lindo! E era como se aquela visão lhes aumentasse a velocidade, como se quisessem ir ao encontro daquelas águas... Serpentearam pelas últimas ruas e vibraram quando estavam prestes a parar... E a fila indiana foi se transformando em nova aglomeração...
E, então, mesmo suadas e cansadas, aquelas pessoas continuavam alegres e ainda se abraçavam e tiravam mais e mais fotos... Estavam felizes... Estavam extasiadas... E sim, elas buscavam alguma coisa: preencher aquela manhã (feia? chuvosa? fria?) de sentido, preencher aquele dia de vida...