MINHAS PRÓXIMAS CORRIDAS

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

DE SIMPLICIDADES E TECNOLOGIAS (Crônica publicada na edição 7 da revista Boratreinar, julho/2013)


Guiados pelo prazer, sem destino nem distância programada; descalços pela areia, ao sabor do vento; com a frequência cardíaca monitorada pela emoção que é ativada por um amanhecer ensolarado, por um pôr do sol multicolorido, pela claridade de uma noite enluarada...



E geralmente começamos de uma maneira descompromissada, como um lazer, uma recomendação médica, um não ao sedentarismo... E no início pode ser um pouco incômodo: ficamos muito cansados, bastante ofegantes, com um pouco de dor no corpo... Se insistimos e continuamos tentando, aos poucos passamos a sentir um bem-estar “estranho”, meio inexplicável: como pode algo que nos deixa tão desgastados provocar uma sensação tão gostosa? E continuamos... Vencemos as primeiras dificuldades, começamos a convidar alguns amigos para ir junto, conseguimos ampliar um pouco o tempo na prática do exercício, olhamos um tênis mais indicado para a atividade, compramos um top aqui, um short ali, meias adequadas e: opa! Inscrevemos-nos em uma prova! Pronto, se ainda não estávamos – ou não nos julgávamos – fisgados pela corrida, agora não tem mais jeito.
Quando se sente a adrenalina de um ambiente de corrida e, principalmente, quando se participa de uma, dificilmente a pessoa consegue parar... Não é necessário ir para competir, podemos deixar isso para os profissionais e ir apenas (como se fosse pouco) pelo prazer de participar... É como se ali as pessoas esquecessem seus problemas e deixassem fluir o que há de mais vivo nelas, uma mistura de felicidade e adrenalina, no pré-prova, e de endorfina e satisfação, no pós-prova. Avistar, a alguns metros, uma linha de chegada e dela ir se aproximando até atravessá-la tem um significado muito específico para cada um de nós, mas, acredito, tem o gosto da satisfação para todos. E o que dizer da primeira medalha? Ah, é realmente valorosa!
E continuamos atentos às novidades: novas corridas, outros tênis, novas distâncias, mais velocidade. Que tal uma ladeirinha pelo trajeto? E o que dizer dos treinos de tiro? De uma corrida noturna? E correr na areia? Já ouviu falar de uma espécie de sapatilha que mais parece uma luva para os pés, superconfortável para correr na areia? Chega um amigo mais atento à tecnologia e nos mostra um frequencímetro aqui, um GPS ali, um software de corrida acolá... E vamos nos atualizando no que há de mais moderno no universo da corrida... De repente, percebemos que precisamos de um porta-medalhas e que se corrermos com um cinto de hidratação podemos nos desgastar menos... Os mais aventureiros, que gostam de longas distâncias, já vão logo de mochilinha de hidratação nas costas... E descobrimos os carboidratos em gel, as balinhas que repõem os sais minerais, os hidrotônicos e isotônicos... E os aminoácidos, que nos ajudam a evitar a perda de massa magra, é claro...
E o universo da corrida começa a se mostrar muito mais “recheado” do que podíamos imaginar quando dávamos nossos primeiros e dificultosos trotes por aí. Todos esses aparatos surgem na intenção de nos auxiliar, de evitar que nosso corpo sofra muito desgaste, de nos manter saudáveis para uma prática de corrida consciente. Meus armários estão cheios deles, meu guarda-roupa também. Mas sabem de uma coisa? Tem dias em que o bom mesmo é deixar quase tudo isso de lado e sair correndo simplesmente... Guiados pelo prazer, sem destino nem distância programada; descalços pela areia, ao sabor do vento; com a frequência cardíaca monitorada pela emoção que é ativada por um amanhecer ensolarado, por um pôr do sol multicolorido, pela claridade de uma noite enluarada... Dias em que deixamos adormecer -  nem que seja por alguns momentos - o atleta latente que existe em nós, tão homo sapiens, em busca de aperfeiçoamentos, e despertamos o homo sentimentalis, que se emociona e, sobretudo, valoriza as simplicidades da vida...

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