MINHAS PRÓXIMAS CORRIDAS

quarta-feira, 11 de março de 2015

30 DIAS... CONTAGEM REGRESSIVA PARA O SONHO DE 2015





30 dias.
1 mês exato.
Nem mais nem menos...


E todos os 175 dias de preparação até agora começam a gritar em minha mente, em meu corpo. Estão dizendo a mim que a base foi feita, que o alicerce está forte. Dizem que o corpo mudou, fortaleceu-se. Dizem que a mente mudou, deixou de ter tão insegura e imediatista.

 175 dias de muita musculação, muita consciência alimentar, muitos treinos de velocidade, de areia fofa, de subidas ao Convento e ao Moreno, de longões intermináveis. Foram duas provas-treino
lindas, duras, que me fizeram mais experiente, mais forte: os 42km de Búzios, com suas areias escaldantes, suas praias lindas, suas trilhas sinuosas; os 42km de Corupá (ah! Corupá!) – prova que me ensinou a encarar a solidão de uma prova longa, em 8h16 de montanha, de mata fechada, de lama...

Foram 175 dias vivendo o sonho da ultramaratona. Reconhecendo, nos músculos colocados constantemente à prova, as fraquezas que precisavam ser deixadas para trás. 175 dias cuidando do corpo físico, entregando-me totalmente aos conhecimentos da minha treinadora Helayne Montebelo, da minha nutricionista Carol Sessa, do meu fisiatra Fabrício Buzatto. 

E agora? Só faltam 30 dias...

As emoções já embolam na garganta. Há medo no ar... Nunca me sentirei totalmente preparada... Enfrentar o desconhecido sempre vai causar um friozinho na espinha. Não será apenas vencer 70km, mas 70km no cenário majestoso das montanhas da Patagônia. É experiência para ficar traçada nos músculos, nas retinas, na alma...

 30 dias...
Agora é a lapidação.
                                                               É o pente fino.
É fazer as malas e colocar nelas toda a vontade, 
toda a bagagem adquirida, 
todo o sonho que justificou os 175 dias de entrega total...

Contagem regressiva para aquela que será minha experiência mais intensa até hoje; para aquela que vai me transformar (espero) não apenas na ultramaratonista que quero ser, mas numa pessoa mais resistente. Capaz de vencer medos, vencer fraquezas, superar corpo e mente para chegar ao êxtase de atravessar a linha de chegada e dizer  “Eu consegui”! Será muito mais do que uma superação física. Tem sido, sempre, a busca de mim mesma...

"Ao correr tão longas e extenuantes distâncias eles [os ultramaratonistas] respondem uma chamada do mais profundo de seu ser – uma chamada que responde quem realmente eles são.” (David Blaikie).


sábado, 17 de janeiro de 2015

DE COISAS INOMINÁVEIS...

Por que a Patagônia? Já me perguntaram algumas vezes... Além de serem 70 km, ainda precisa ser de montanhas e no frio? Já me perguntaram também... Na verdade, nunca parei para pensar no porquê da Patagônia, porque não é muito racional... 
Tenho estado muito emotiva com essa minha empreitada. Acho que a mudança do ano trouxe a proximidade da data. Pensar que três meses me separam do grande dia e voltar aos treinos intensos têm me feito temer e desejar cada dia mais o mês de abril. Constatar a pequenez humana diante da grandeza do cenário me impressiona. As fotos da edição passada tiram de mim lágrimas de emoção.  Choro de verdade quando vejo o que vou presenciar. Como se eu “pré-sentisse” o que vai ser estar lá.
 
Se me perguntarem o que eu busco com isso (que para muitos é uma loucura), acho que as palavras não alcançariam uma resposta tão satisfatória quanto as lágrimas que me saem apenas de ver a paisagem de lá. Dá um nó na garganta. Lembro a professorinha do interior de Minas que saiu de casa obesa para fazer doutorado e começou a correr. Descobriu na corrida uma vida que o mundo acadêmico sozinho não preenchia. Não é provar nada para ninguém; nem para mim mesma. Não é vencer a natureza; é entrar em comunhão com ela. É buscar algo que não se nomeia. Algo que está aqui dentro de mim pedindo para viver e que precisa ter a chance de sair de mim e se expandir para voltar para mim e me completar um pouco mais...
 
Há um trecho que fala sobre ultramaratonistas que diz um pouco sobre isso:
“Mas como afirmam poetas, apóstolos e filósofos desde os mais remotos tempos, existe muito mais na vida que a simples lógica e o bom senso. Os ultramaratonistas percebem isso instintivamente. E eles sabem algo mais que está perdido no sedentarismo. Eles entendem, talvez mais que ninguém, que a porta para o espírito se abrirá  com os esforço físico. Ao correr tão longas e extenuantes distâncias eles respondem uma chamada do mais profundo do seu ser – uma chamada que responde quem eles realmente são.” (David Blaikie)
 
Eu ainda não sei o que é ser uma ultramaratonista. Sei o que é me preparar para tentar ser. E me lembro, quando treinei para minha primeira (e segunda e terceira e quarta) maratona, que lia muito que treinar para maratona significaria só pensar a respeito dela, abdicar de muitas coisas por ela, ficar chata e só falar sobre ela, dedicar de verdade aos treinamentos... E agora? Repito a mesma (mas tão diferente) coisa. Vivo, respiro os 70 km, só que mais solitária e introspectivamente. E nem tenho noção do que é estar preparada para tal empreitada. Sigo minhas planilhas com afinco. Tenho feito tudo o que me é recomendado. Mas o que é estar preparado? Não sei mesmo! Acho que nunca vou me sentir preparada de verdade. Mas acho que tenho ouvido essa “chamada do mais profundo do meu ser”. Preciso ir lá e viver essa experiência para sentir que o corpo aguenta e completar minha alma.

Para alguns é sinônimo de sofrimento desnecessário. Talvez alguns outros me entendam que, apesar do sofrimento (sim, porque há sofrimento), é um modo de aventurar-se  um pouco pela vida afora e muito pela vida “adentro”. É a realização íntima pela superação física.
 
É a professorinha do mundo das Letras buscando se completar com suor e poesia.
 

 


 

domingo, 11 de janeiro de 2015

DE ESCULTURAS... E CORREDORES... E ULTRAMARATONAS...

“Mas você não tem medo?”
Eu estou morrendo de medo... Mas vou...

Ouvi essa pergunta esses dias, a respeito dos 70 km da Patagônia. É claro que tenho medo! Sempre terei, todas as vezes em que a corrida for mais do que um simples treino de verão no calçadão. E como é bom ter esse medo! Talvez fosse melhor dizer respeito. Respeito as corridas. As longas em especial, que são as que me atraem. Respeito-as demais, porque elas exigem de mim a constante capacidade de superação. Ter medo e respeitar, entretanto, motivam-me a me preparar, a procurar estar minimamente pronta para as empreitadas que seleciono. Não são as corridas-alvo que me fazem, elas apenas coroam a minha formação. É o dia a dia que me torna uma corredora, que vão me moldando, formando-me, física e psicologicamente.

Todas as vezes em que posto nas redes sociais: “partiu, academia!”, “treino de tiros”, “treino de areia”, “treino de morro”, “treino no Convento”, “longão de 30”, “37”, estou tentando me transformar na ultramaratonista que tanto quero ser. Cada dia é como se eu estivesse percorrendo alguns metros da corrida-alvo.


Michelângelo, o escultor da famosa estátua de Davi, quando lhe perguntaram como ele conseguia esculpir um cavalo em uma pedra de mármore, disse que o cavalo já estava lá, bastava a ele retirar do mármore o que não era parte do cavalo. Assim penso que é o trabalho de preparação. Sinto que, pelas minhas características, pela minha personalidade, há uma ultramaratonista dentro de mim. É preciso fazê-la aparecer por meio do trabalho lento e cuidadoso de tirar de mim o que há de excesso e ir lapidando. Devagar, com cuidado, para que não seja tirado nada que possa fazer falta; para que a ultramaratonista saia o mais perfeito possível que minha pedra de mármore permitir.

É trabalho diário... Faz 117 dias que considero que o projeto ultramaratona começou. Faço registros diários sobre os treinos. Anoto o rendimento e alguma ou algumas impressão(ões) sobre o treino: se foi bom ou ruim, o que senti, comparo com anteriores... Agora que passei por três semanas de descanso, reduzindo quilometragem e apenas fazendo treinos leves de manutenção (acho que posso dizer assim), parei para rever algumas anotações desses 117 dias. Claro que houve dias bons e ruins. Às vezes penso que os dias considerados ruins são mais importantes do que os bons, pois eles ensinam mais. Eles apontam as fragilidades que precisam ser mais trabalhadas...

Amanhã retomo o ritmo normal dos treinos. Não sei o que me aguarda. É opção da minha treinadora não me passar a planilha antecipadamente. Ela vai me passando aos poucos. Mas imagino que o que vem pela frente não vai ser fácil. Na verdade, precisa não ser fácil. Faltam três meses para a corrida e sei que ainda tenho que sofrer muito nos treinos para a ultramaratonista começar a aparecer na pedra de mármore. Às vezes a vislumbro, como uma sombra, um vulto lá dentro do bloco de pedra, como se o mais grosso já tivesse sido retirado. Ela está prestes a começar a aparecer, mas o trabalho mais minucioso está por vir. Retirar a porção certa, sem ferir; sem atingir o que já está formado. A escultora-chefe (há outros escultores no processo: nutricionista, fisiatra...) é minha treinadora, mas, diferentemente de Michelângelo, não foi ela que foi ao cavalo, o cavalo foi até ela pedindo para sair do bloco de mármore. E, também diferentemente do mestre renascentista, ela dá o comando, mas quem é responsável pelo cinzel sou eu. É quase uma autolapidação, porque quem faz o treino ou não sou eu, se sigo o comando ou não sou eu, se como adequadamente ou não sou eu, se me suplemento segundo as orientações ou não sou eu... Com o tempo tenho aprendido a usar o cinzel adequadamente, vou amadurecendo a arte de esculpir em mim a corredora que a cada dia vou querendo ser...

Faltam três meses... Mais especificamente 89 dias... Já mudei muito. E tenho muito ainda a mudar. O medo vai me acompanhar até o grande dia, porque os treinos de tiros doem, o treinos de areia doem, os treinos de morro doem, os longões doem... Mas quem disse que as pedras de mármore ao serem atingidas pelo cinzel do escultor não sentem dor? Talvez nunca tenham perguntado isso a elas. Mas as lindas postagens sobre treinos diários camuflam os sacrifícios e desgastes que precisamos passar por eles para nos tornarmos corredores, corredores maratonistas, corredores ultramaratonistas... Se nossos músculos precisam do desgaste para se recuperarem e fortalecerem, é isto que precisamos fazer com eles: desgastá-los, colocá-los à prova.

Mas não quero que pareça algo desprazeroso. Apenas quero dizer eu não nascemos prontos, sempre nos tornamos aquilo que queremos e lutamos para ser... Faço porque gosto do desafio, gosto deste processo sempre in progress, este vir a ser constante a que me proponho. Faço porque acredito que na vida temos que ter sempre uma meta a buscar, seja ela em que área for... A minha, pelo menos por agora, está na corrida... (Já esteve nos estudos, por exemplo, e era necessária a mesma e diferente constante preparação até chegar ao fim do doutorado.) E acredito que após o cavalo, terei outra escultura para tirar de dentro de mim... Mas isso é assunto para outra crônica e outro tempo e outras preparações e cinzéis e escultores...







segunda-feira, 17 de novembro de 2014

CORRER OU NÃO CORRER BÚZIOS? EIS A QUESTÃO...



Correr ou não correr Búzios? Eis a questão...

Durante alguns dias, essa foi a pergunta que me fiz, depois de ter sentido uma dor no joelho na maratona de Salvador no final de agosto. A inscrição para Búzios já tinha sido feita e a dor permaneceu alguns dias, mexendo não só com meu corpo físico, mas também com meu corpo emocional.  Última semana de agosto descansando de Salvador, primeira semana de setembro descansando da dor... E vi os dias se passando e a sensação de que era para eu estar começando a treinar pesado para Búzios começou a me deixar angustiada. Desisti... Coloquei minha inscrição à venda. Falei com alguns amigos, anunciei minha inscrição e esperei.
O coração ficou triste... Búzios era um sonho... Era para ter sido minha maratona-foco para 2014, mas acabei me dedicando à de Salvador...  Pronto, oportunidade perdida. Bola pra frente...

Mais uns dias se passaram. Inscrição para minha primeira ultramaratona na Patagônia realizada e, após uma conversa com uma moça que fez essa prova ano passado, Búzios voltou a fazer parte dos meus pensamentos. Ela me disse que seria muito bom se eu passasse por algumas maratonas trail antes de encarar a Patagônia. Fiquei com isso na cabeça e a vontade de fazer Búzios voltou com toda força. O joelho estava silencioso e, numa espécie de coincidência de pensamentos, minha treinadora e eu resolvemos que eu devia, sim, fazer Búzios: como fosse possível, caminhando mais do que correndo, se fosse necessário. Era para viver a experiência de uma prova difícil, era para perder a inocência nas provas duras...

Ainda bem que eu não tinha conseguido repassar minha inscrição. Começamos, então, a treinar: areia fofa e  morros... Foram vários treinos, mas três deles muito marcantes: as trilhas do Mestre Álvaro, os 30 km de morros e o último treino longo de morros com areia fofa no final.  Esses treinos me deram certa segurança e fui para Búzios para fazer um treino de luxo para a Patagônia...

XC Run Búzios é uma prova muito falada e respeitada. Conhecida como uma das mais difíceis da modalidade. Fui com medo, mas fui. Fui sabendo de minhas limitações, mas fui. Fui com o coração repleto de sonhos. Fui para experimentar meus limites físicos e emocionais...

E amanheceu lindo! Um azul intenso no céu anunciava o dia quente que enfrentaríamos. Acordei ansiosa, uma mistura de euforia e medo se diluíam na água que enchia minha mochilinha de hidratação. E lá fui eu encarar os 42 km da Maratona Cross Country de Búzios.

Comecei com amigos, cada um com sua experiência cravada na pele, nos anos, nas histórias.  Achei a primeira parte da prova – os primeiros 10km – bem chata de fazer. Quase toda por ruas de paralelepípedos, num sobe e desce sem fim. Somente no fim, por volta dos 9 km chegamos a uma praia e, aí, o cenário foi se anunciando cada vez mais lindo.

No segundo trecho, começaram as trilhas e as emoções mais fortes. Os amigos, cada um encontrou seu ritmo, e eu fui seguindo o ritmo que o corpo permitia e o coração desejava. Sobe trilhas, desce trilhas e chega à praia. Alguns quilômetros de areia sob um sol que começava a arder sobre nós e em nós...

Na transição dos 20 km eu me sentia bem e estava prestes a fazer um trecho que eu já conhecia, pois há dois anos fiz a prova em quarteto e percorri a terceira parte da prova. Nela está o morro mais temido, bem no início, um morro que você faz se amparando nas encostas, agarrando nos caules, impulsionando o corpo com as mãos no chão. Mas quando chega ao topo tem uma das vistas mais bonitas de Búzios, com direito a musiquinha ao vivo e tudo. A gente para, curte o visual, tira foto, respira fundo, ouve o berimbau, a capoeira e segue... Hora de descer... Lembro-me de alguns pensamentos enquanto eu me concentrava nas irregularidades do solo que pisava. Um desses pensamentos era que eu estava bem e que ia conseguir concluir a prova bem. Outro foi um momento de agradecimento por estar ali podendo viver aquela experiência... A gente vive tantas emoções enquanto corre, principalmente numa corrida longa em que dá tempo de pensar em tanta coisa...

Na transição dos 30 km eu pensei: agora são só mais 10 km... Mas eu não tinha noção do que me aguardava... E o que me aguardava me colocou à prova em todos os sentidos: físicos e emocionais. Além de mais trilhas, o que mais marcou esse trecho foi a maré alta e as pedras... Eu, que tanto medo tenho do mar, encarei a maré alta, na altura dos joelhos, batendo contra as pedras... Fiz uma parte do trecho com o coração nas mãos, com medo, pois em alguns lugares não dava para ver onde pisava, só sabia que eu tinha que alcançar as pedras logo adiante... Dei graças a Deus quando voltei para as trilhas, achando que a aventura maior tinha passado. Mas, por volta do km 39, lembro-me da moça que trabalhava como staff apontando para a direita e dizendo: agora é só seguir pelas pedras... Quando eu virei à direita, cheguei novamente à praia e avistei as pedras a que ela se referiu. Coração disparou novamente, era hora de encará-las – escorregadias, cheias de limo, soltas, perigosas -, exigindo do corpo cansado de quase 40 km percorridos uma atenção e equilíbrio muito grandes. Na verdade, a atenção exigida era tão grande que dava até para esquecer o cansaço físico... E lá estava eu, enfrentando as pedras no caminho... Drummond que me dê licença, mas havia muitas pedras naquele meu caminho. Hoje penso que cada pedra ultrapassada representa uma superação vivida. Sabe aqueles obstáculos que a gente vive? As dores físicas? As dores emocionais? As lesões e os medos? Expurguei todos eles ali naquelas pedras... Ficaram para trás, embora façam de mim quem eu sou hoje...
 Cada pedra que pisei, cada trilha que escalei, a maré que enfrentei ajudaram a fortalecer a mudança que vivencio em relação à corrida.  Hoje sou outra corredora, em busca de outras emoções. Emoções que exigem de mim mais do que um corpo em velocidade, mas um corpo em equilíbrio físico e mental... As distâncias nos permitem isso, as trilhas nos permitem isso, as dificuldades,  os desafios trail nos permitem isso...


Búzios foi a grande corrida de minha vida até hoje. Acho que a minha vida de corredora se dividirá em antes e depois de Búzios. Ali tive a certeza do que quero para mim a partir de agora... Atravessei a linha de chegada depois de 6 horas e 20 minutos. Cansada e feliz. Mais feliz do  que cansada. Superei minhas expectativas. Superei minhas emoções. Superei as pedras no caminho.




 “Jamais me esquecerei desse acontecimento
Na vida de minhas retinas tão fatigadas”
Jamais me esquecerei de que na minha vida de corredora
Teve Búzios no meio do caminho...

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

A BAHIA QUE ME FEZ MAIS FORTE


"Foi então que aprendi a correr contra as palavras dentro de mim, 
da mesma maneira que aprendi a correr contra o vento" (PEIXOTO, 2008, p. 130).

         
          Antes mesmo de amanhecer, uma turma já acordava ansiosa em Salvador. Havia expectativa no ar. O cheiro que exalava no café da manhã naquele domingo não era o do café, mas da ansiedade. Número de peito preso na blusa, cabelos presos sob a viseira, protetor solar brilhando sobre a pele... E fomos nós desbravar a cidade correndo...
          Dia lindo, sol queimando o azul do céu bem cedinho, e as passadas começaram firmes, mais firmes do que o coração nervoso.  Emoção embolada na garganta mostrava a importância e o peso dos 42 km que estavam por vir. Corações conhecidos estavam por perto. Com certeza também batiam descompassados: fora do compasso das passadas desejosas de asfalto.
          Correr por um lugar desconhecido faz do trajeto uma novidade constante. As ruas de Salvador iam se revelando mais aos pés do que aos olhos.  Sentia a cidade pulsando sob meus pés. Pulsação irregular  dos desníveis do asfalto, pulsação ofegante das pequenas subidas rumo ao Farol, pulsação acelerada das descidas...
          E por 21 km meus pés pisaram parte do asfalto de Dodô e Osmar.  E era o carnaval de Salvador pulsando sob mim...


         Mas, depois do carnaval, a maratona dos pés passou para o joelho e dali para a cabeça... Deixou de ser a rua pulsando sob mim, para ser a dor pulsando dentro de mim. E, por algum tempo, foi quarta-feira de cinzas em Salvador... E a maratona da Bahia escureceu aos meus olhos e ao meu coração. Uma nuvem escura fez o dia ficar cinza por alguns quilômetros. Choveu sobre nós e dentro de mim em pleno Jardim de Alah...
          E então a maratona saiu da cidade e se internalizou em mim. Como se a chuva fizesse com que meus poros sugassem as gotas sobre a pele, carregando com elas os quase 20 quilômetros que estavam por vir. E comecei a correr dentro de mim... Difícil correr dentro da gente: é uma corrida recheada das lembranças de todo o treinamento realizado; repleta de pensamentos ruins que, se não controlados, podem nos derrubar; exigindo equilíbrio entre a dor e o pensamento...

Assim como corremos nas ruas [...], corremos dentro de nós. Na meta, a distância e o peso desta maratona interior serão tão importantes como os quilômetros destas ruas [...].”  
(PEIXOTO, 2008, p. 144).

        E, como numa quaresma, corri o restante da prova em introspecção total. Conversava comigo mesma, tentando vencer o joelho que doía e o medo de não conseguir terminar a prova. 

Imaginei este dia durante todas as vezes em que tive esperança: [...]. Tinha esperança, imaginava este dia e acreditava que não iria ter medo; repetia mil vezes para dentro de mim próprio: não irei ter medo, não irei ter medo [...].” (PEIXOTO, 2008, p. 89).

           Mas eu tive medo...

        O sol abriu novamente, mas só consegui sair da minha “quaresma cinzenta”, livrar-me do meu medo, quando faltavam apenas dois quilômetros para terminar a maratona. Até então, fui levando quilômetro a quilômetro numa negociação constante do físico com a mente. Quando cheguei ao quilômetro 40, vi que ainda conseguiria superar meu tempo em maratonas. Então, foi como se anunciasse uma páscoa para mim. Sem saber como, tive forças para fazer os quilômetros finais com mais vontade de superação.  Ali, entre uma caminhada e outra a cada quilômetro que se completava, atravessei a linha de chegada. Conheci Salvador pelas solas de meus pés. Conheci mais a mim mesma pela vitória da mente sobre o corpo.

"Porque a minha vontade tem o tamanho de uma lei da terra. Porque a minha força determina a passagem do tempo. Eu quero. Eu sou capaz de lançar um grito para dentro de mim, que arranca árvores pelas raízes, que explode veias em todos os corpos, que trespassa o mundo. Eu sou capaz de correr através desse grito, à sua velocidade, contra tudo o que se lança para me deter, contra tudo o que se levanta no meu caminho, contra mim próprio. Eu quero. Eu sou capaz (...). Porque a minha vontade me regenera, faz-me nascer, renascer..." (PEIXOTO, 2008, p. 205).


Referência completa do livro de onde as citações foram retiradas: PEIXOTO, José Luís. Cemitério de pianos. Rio de Janeiro: Record, 2008.