MINHAS PRÓXIMAS CORRIDAS

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

COM SABOR DE ESTREIA - Crônica publicada no Blog VAMOS CORRENDO, do meu amigo Julius Carvalho (09/08/2013)



É com sabor de estreia que escrevo esta crônica, inaugurando um espaço onde poderemos falar de uma paixão comum a muitas pessoas: a corrida. Uma paixão que acende os corações, que desperta emoções variadas, que nos torna guerreiros, capazes de superação constante.
Pedir-me para falar de corrida é, instantaneamente, fazer brotar um sorriso em meu rosto, um brilho em meus olhos. E logo começo a me lembrar dos primeiros medos, das primeiras dores, dos primeiros quilômetros percorridos, das primeiras amizades corredoras... Do primeiro kit (sem saber o que fazer com aquele chip), da primeira linha de largada, do primeiro gel de carboidrato, da primeira linha de chegada, da primeira medalha no peito...
E me vêm à mente as segundas e terceiras e quartas e quintas emoções e experiências: que nunca se tornam repetitivas, pois ascorridas têm um sabor diferenciado. Umas com um toque adocicado de superação; outras com um sabor picante de desafio; algumas com uma pitada de ousadia. E muitas, muitas (muitas mesmo!), regadas a sorriso e endorfina (isso, sim, elas têm em comum). 
E por mais que comecemos a correr por motivos ímpares, quando nos encontramos, tornamo-nos "farinha do mesmo saco". E nos lambuzamos de cumplicidades, trocamos experiências, tiramos dúvidas uns com os outros, reconhecemo-nos no suor dos abraços apertados... A corrida é assim: ela nos faz parte de um grupo que entende a dor e a delícia de se entregar de corpo e alma aos treinos, à disciplina... De se doar por inteiro por alguns quilômetros e correr, correr, correr... E querer alcançar seus pódios, suas marcas e medalhas... Suas pequenas consagrações diárias... A corrida nos faz parte de um grupo que se emociona... Ali não estão apenas corpos que correm e se satisfazem com a endorfina na veia e com os músculos que latejam, acusando o esforço feito; não, não é apenas físico... Ali estão seres que se emocionam, que sentem além do físico, que vibram com o que há além da matéria das medalhas e dos troféus e dos degraus dos pódios...

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

DE SIMPLICIDADES E TECNOLOGIAS (Crônica publicada na edição 7 da revista Boratreinar, julho/2013)


Guiados pelo prazer, sem destino nem distância programada; descalços pela areia, ao sabor do vento; com a frequência cardíaca monitorada pela emoção que é ativada por um amanhecer ensolarado, por um pôr do sol multicolorido, pela claridade de uma noite enluarada...



E geralmente começamos de uma maneira descompromissada, como um lazer, uma recomendação médica, um não ao sedentarismo... E no início pode ser um pouco incômodo: ficamos muito cansados, bastante ofegantes, com um pouco de dor no corpo... Se insistimos e continuamos tentando, aos poucos passamos a sentir um bem-estar “estranho”, meio inexplicável: como pode algo que nos deixa tão desgastados provocar uma sensação tão gostosa? E continuamos... Vencemos as primeiras dificuldades, começamos a convidar alguns amigos para ir junto, conseguimos ampliar um pouco o tempo na prática do exercício, olhamos um tênis mais indicado para a atividade, compramos um top aqui, um short ali, meias adequadas e: opa! Inscrevemos-nos em uma prova! Pronto, se ainda não estávamos – ou não nos julgávamos – fisgados pela corrida, agora não tem mais jeito.
Quando se sente a adrenalina de um ambiente de corrida e, principalmente, quando se participa de uma, dificilmente a pessoa consegue parar... Não é necessário ir para competir, podemos deixar isso para os profissionais e ir apenas (como se fosse pouco) pelo prazer de participar... É como se ali as pessoas esquecessem seus problemas e deixassem fluir o que há de mais vivo nelas, uma mistura de felicidade e adrenalina, no pré-prova, e de endorfina e satisfação, no pós-prova. Avistar, a alguns metros, uma linha de chegada e dela ir se aproximando até atravessá-la tem um significado muito específico para cada um de nós, mas, acredito, tem o gosto da satisfação para todos. E o que dizer da primeira medalha? Ah, é realmente valorosa!
E continuamos atentos às novidades: novas corridas, outros tênis, novas distâncias, mais velocidade. Que tal uma ladeirinha pelo trajeto? E o que dizer dos treinos de tiro? De uma corrida noturna? E correr na areia? Já ouviu falar de uma espécie de sapatilha que mais parece uma luva para os pés, superconfortável para correr na areia? Chega um amigo mais atento à tecnologia e nos mostra um frequencímetro aqui, um GPS ali, um software de corrida acolá... E vamos nos atualizando no que há de mais moderno no universo da corrida... De repente, percebemos que precisamos de um porta-medalhas e que se corrermos com um cinto de hidratação podemos nos desgastar menos... Os mais aventureiros, que gostam de longas distâncias, já vão logo de mochilinha de hidratação nas costas... E descobrimos os carboidratos em gel, as balinhas que repõem os sais minerais, os hidrotônicos e isotônicos... E os aminoácidos, que nos ajudam a evitar a perda de massa magra, é claro...
E o universo da corrida começa a se mostrar muito mais “recheado” do que podíamos imaginar quando dávamos nossos primeiros e dificultosos trotes por aí. Todos esses aparatos surgem na intenção de nos auxiliar, de evitar que nosso corpo sofra muito desgaste, de nos manter saudáveis para uma prática de corrida consciente. Meus armários estão cheios deles, meu guarda-roupa também. Mas sabem de uma coisa? Tem dias em que o bom mesmo é deixar quase tudo isso de lado e sair correndo simplesmente... Guiados pelo prazer, sem destino nem distância programada; descalços pela areia, ao sabor do vento; com a frequência cardíaca monitorada pela emoção que é ativada por um amanhecer ensolarado, por um pôr do sol multicolorido, pela claridade de uma noite enluarada... Dias em que deixamos adormecer -  nem que seja por alguns momentos - o atleta latente que existe em nós, tão homo sapiens, em busca de aperfeiçoamentos, e despertamos o homo sentimentalis, que se emociona e, sobretudo, valoriza as simplicidades da vida...

sábado, 29 de junho de 2013

O QUE APRENDI COM A MARATONA QUE NÃO CORRI...




Faz tempo que não escrevo uma crônica. Acabei me deixando levar pela correria da vida, fui deixando para depois, deixando, e acabei não escrevendo mais... Tenho escrito pequenos textos que divulgo no facebook... Algumas pessoas me pedem para eu voltar a escrever, para não “abandonar” o blog, porque se sentem tocadas por minhas palavras... Que gostoso ouvir isso!!! E volto a escrever...

Há um texto pedindo para sair já faz algum tempo, mas o estava segurando com receio de que saísse muito pesado, no auge das emoções mais densas... Quem me conhece, seja pessoalmente, seja pelas redes sociais ou pelo blog, sabe que a corrida é minha paixão, uma válvula de escape do estresse diário, minha principal injeção de endorfina... A corrida ocupa na minha vida um espaço muito grande, maior do que eu imaginava até ser obrigada a ficar sem correr por um período maior... O vazio que fica, a falta  de endorfina na veia... Murchamos um pouco quando não podemos correr...

Nos meus 3 anos de corredora, não havia tido que parar de correr por mais de uma semana por causa de dores... Não tive nada que o gelo, um anti-inflamatório e alguns dias de repouso não resolvessem... Vi muitos amigos precisando ficar parados por meses, passar por cirurgias, mas não tinha sido, ainda, minha realidade... Então eu fui dando corda a meus sonhos, estabelecendo metas, fazendo inscrições... Buscando ajudas profissionais e tentando fazer tudo da melhor maneira possível...

E a Maratona do Rio estava no centro de 2013...

Mas, a pouco mais de um mês da maratona, meu corpo deu o grito, meu pé deu o grito... Gelo, anti-inflamatório, duas semanas parada e nada... Foi preciso ir atrás de auxílio médico e entender o que estava de fato acontecendo... Fascite plantar: era hora de parar para cuidar... E o tempo foi passando, as dores diminuindo, os trotes voltando de leve e aos poucos, e a consciência de que a paciência e a cautela são necessárias para uma evolução mais eficaz... E a data da maratona vai se aproximando e meu condicionamento e alegria se afastando...

Decidir não ir foi duro... Está sendo duro... E é  com frequência que meus olhos umedecem  e minha garganta aperta...Entendo que alguns amigos mais experientes, sabendo do meu amor pela corrida, tendo visto minha dedicação aos treinos, acham que eu deveria ir... Meu coração também deseja ir... Talvez seja uma insegurança de primeira lesão, imaturidade de atleta iniciante, mas há o medo de encarar os 42 km, sair deles muito pior e ficar mais meses parada... Ainda tenho tantos sonhos para 2013!!! E ainda tenho muita coisa a aprender sobre ser atleta...

E eu sigo sonhando com as corridas e aprendendo a ouvir meu corpo, a rever conceitos, a restabelecer metas... E sigo aprendendo que há momentos em que menos é mais, que algumas escolhas são mais dolorosas na alma que no corpo, que a atenção que você precisa realmente pode vir de onde menos se espera, que é preciso viver um dia de cada vez, que deixar de cumprir uma meta não é fracasso, que retraçar um objetivo não é fraqueza nem falta de foco, que amadurecer é difícil... E que a vida segue, em seu ritmo desenfreado, mas às vezes nos faz recomeçar, humildemente, a passos lentos, buscando firmeza para novos rumos...

E de uma coisa eu tenho certeza mais do que antes: eu sou uma corredora de coração... De coração mole, é verdade... Mas de coração inteiro...



domingo, 20 de janeiro de 2013

A SÃO SILVESTRE DE CADA UM DE NÓS....

Foi preciso deixar passar alguns dias, deixar as emoções se acomodarem, para poder escrever sobre a Corrida de São Silvestre. Desde que comecei a correr, há quase 3 anos, que as pessoas me perguntavam se eu já havia feito a São Silvestre e, quando eu dizia que não, elas pareciam decepcionadas... Eu procurava explicar que já havia feito corridas mais longas e que, para mim, eram de peso muito maior, como meia maratona e maratona. Mas, ainda assim, as pessoas se mostravam insatisfeitas. Pareciam pensar: "Mas que corredora é você que não correu a São Silvestre?". O mais engraçado é que são pessoas que não correm... Foi quando eu comecei a procurar entender o que a São Silvestre teria de diferente ou especial...

Em 2011, cheguei a me inscrever para a prova, queria ter a São Silvestre no currículo para poder responder: "Sim, eu já corri a São Silvestre!". Mas, por motivos alheios à minha vontade, acabei não indo; e assisti à corrida com um aperto no peito muito grande. Era para eu estar lá, mas eu não estava... Mas veio 2012, muita coisa mudou em minha vida e lá estava eu, entre 25 mil corredores... Uma prova para não pensar em tempo, eu queria curtir, percorrer aqueles 15 km como uma celebração do ano que findava e que me trouxera tantas experiências boas...

Manhã do dia 31 de dezembro, Avenida Paulista. Um mar de corredores tomando conta do espaço. Bonito de se ver. Emocionante de participar. Estar ali era de fato uma celebração. A celebração de uma vida melhor, mais saudável. De uma vida que, hoje, pesa menos no corpo, nos ombros, na alma... De uma vida que requer disciplina e determinação... De uma vida que faz de mim uma mulher mais feliz e realizada....

Estar ali era olhar para trás, para a moça que saiu da casa da família, há 5 anos, com 30 kg a mais, e recordar a mudança pela qual havia passado: a matrícula em uma academia, muito suor enxugado em cada aula de jump, spinning, step... Cada músculo dolorido que tentava ocupar o espaço que ia sendo deixado livre sob a pele à medida que eu emagrecia... Estar ali era lembrar a moça, já magra, começando a dar seus primeiros trotes de 1 min infindável; 1 min em que o corpo clamava por um oxigênio que parecia faltar; 1 min em que as pernas imploravam para parar... E o tempo foi passando, e aquele minuto foi aumentando e deixou de ser contado em tempo para ser medido em distância: 1 km, 2 km, 3 km, 4 km, 5 km (e a estreia em provas), 10 km, 16 km, 21 km (o sonho da meia maratona) e o desejo maior dos 42 km (aquele minuto foi se multiplicando, multiplicando e chegou a 4h24min)...

Aquela Lílian que foi criada no interior não podia imaginar que sairia de lá rumo a uma vida literalmente corrida... Virou corredora, virou maratonista, foi ser feliz em outras paragens e chegou à São Silvestre para relembrar tudo isso e celebrar...

Hoje eu entendo que eu precisava viver o clima da São Silvestre. Estar ali é mágico. Há uma aura sobre esta corrida. Talvez pela data, pela quantidade de pessoas, pela tradição... Foi a única corrida até hoje que eu desejei que não acabasse...Correria mais e mais quilômetros curtindo cada rua, a companhia da amiga Gleice Medeiros, as diferentes pessoas pelo caminho. E quantas diferenças: jovens, idosos, magros, gordinhos, deficientes, diferentes raças e nacionalidades: mas todos unidos pela corrida.

Entre aquelas 25 mil pessoas, 25 mil novos capítulos de vida estavam sendo escritos ali. O meu foi um capítulo ao estilo flashback, para olhar para trás e agradecer demais o presente e me manter firme em meus propósitos e valores para ter um futuro ainda melhor... O relato de amigos comprova isso, sentimos a emoção que eles sentiram também quando lemos suas palavras ou vemos suas imagens:


"Era uma vez uma garotinha tímida e franzina, lá do interior da Bahia, que todos os anos, desde que se entendeu por gente, se “plantava” na frente da TV no último dia de dezembro para assistir à Corrida de São Silvestre. Ela não entendia o porquê, mas vibrava com a corrida, e sempre repetia: um dia eu vou correr aí. Com o passar dos anos, ela se mudou para o Espírito Santo, foi sendo engolida pela vida e o sonho foi parar no fundo da gaveta da memória. E todos os anos, no último dia de dezembro, depois de assistir a “São Silvestre”, ela abria a gaveta, olhava para o sonho e repetia: um dia eu vou correr aí. O tempo passou, e um belo dia a garotinha tímida e franzina, agora já na metade da vida, foi picada pelo bichinho da corrida. E correu, e correu, e gostou, e correu muito mais. E encontrou um bando de loucos que corriam, e fez muitos amigos, e correu mais e mais. Correu tanto que passou a acreditar que o sonho da menina tímida e franzina poderia sair definitivamente da gaveta da memória e se mudar para o mundo real. Em 31.12.12 ela correu a São Silvestre... com lágrimas nos olhos e o coração na boca. De vez em quando ainda abre a gaveta, só pra confirmar se o sonho saiu mesmo de lá. É que nem ela acredita..." (Eubenes Moreira)


"Ela nem estava nos meus sonhos, mas não é que ela foi um sonho de corrida! (...) Chegar de viagem e ouvir da minha mãe que não conseguiu assistir a São Silvestre... Pq chorava de emoção e de orgulho por saber que eu estava lá, sem sombra de duvida não tem preço... Ela sabe por tudo que passei e o que sou hoje... E saber que ela tem orgulho de mim é bom de mais da conta, sô!!!"(Gleice Medeiros)


"Me lembro muito bem do dia 31 do ano passado [2011] eu sentado num sofá em Marataízes, chorando por não estar na São Silvestre. Hj choro por estar aqui!!! Obrigado, Senhor!" (Thiago Pateta)



E o relato em vídeo, do amigo Maximilian Garcia de Barros:


E a gente vai levando a vida assim: sendo feliz à nossa maneira. Escrevendo capítulos emocionantes para nossa história....

sábado, 19 de janeiro de 2013

UM CORRIDO ANO-NOVO PARA TODOS NÓS! (Texto escrito para a coluna "Pé no chão", de Julius Carvalho em A Gazeta, de Vitória, dia 12/01/13)


Fiquei pensando muito sobre o que escreveria para vocês nesta minha primeira participação aqui na coluna “Pé na Rua”, em 2013. Entretanto, escrever com emoção não combina com pensar, por isso eu vou deixar a emoção fluir e as palavras e ideias combinarem entre si...
Início de ano é sempre a mesma coisa, fazemos planos, traçamos objetivos, começamos dieta, e academia, e treinos... Prometemos fazer isso e não mais fazer aquilo... Sonhamos correr mais ou melhor...  Começamos a namorar algumas corridas: “Será que eu me inscrevo em minha primeira prova?” /  “Será que consigo esta?” / “Será que terei grana para aquela?” /  “Será que eu me arrisco em uma maratona?” / “Será que entro para uma assessoria?” Será? Será? Será? Penso que esses questionamentos nos servem como mola propulsora para ações que poderão – se não modificar nossa vida – nos fazer mais felizes e realizados. Porque é disto que precisamos na verdade: de felicidade e realização; e não falo do lado material, mas de nossa realização enquanto seres humanos. Somos seres frágeis, buscando sonhos árduos. Somos seres fortes, fragilizados pelas emoções. Mas somos, sobretudo, seres desejosos: de vida, de felicidade, de satisfações, de amores...
Quer saber? Faça por onde transformar esses “serás” em sonhos realizados... Eu já estabeleci o meu para as corridas deste ano e para alcançá-lo vou precisar abrir mão de muitos outros, de muitas corridas. Mas tudo na vida é feito de escolhas, não é mesmo? Escolha seu sonho maior para 2013 e corra literalmente atrás dele, até chegar ao ponto em que você não estará mais atrás dele, mas junto com ele, experimentando-o, realizando-o. Depois, você vai ultrapassá-lo e olhar para trás cheio de orgulho, quando vir que conseguiu o que tanto queria...  Então, que venham a segunda quinzena do ano, o próximo mês, e o outro, e o outro... E que 2013  nos encontre preparados para nossas travessias, nossas linhas de largada e chegada... ‘Bora, meus amigos, correr por aí, porque não nascemos para ficar parados! Não mesmo!!!

UM DOURADO SORRISO MOLHADO... (Texto publicado no jornal A Gazeta de Vitória, Revista AG, em 06/01/2012)


Um amanhecer. Uma menina. Uma bicicleta... E o que era para ser apenas uma pedalada pela orla virou um momento de explosão... Uma explosão interna, uma epifania de humanidade...

Sabe quando um momento que era para ser corriqueiro toma a proporção de uma vida? Quando você se pega envolvido de tal forma em uma situação que não consegue se desvencilhar dela? Aquele sol brilhando sobre o mar, refletindo uma luz dourada, foi me tomando de tal modo que pareceu me sufocar. Criou uma espécie de bola de energia no meu peito, que foi inchando, inchando e despertou em mim sentimentos incontroláveis... Uma vontade enorme de agradecer pela vida, por aquele momento... Um momento tão todo-dia, tão todo-mundo e de repente tão-único, tão-meu... E eu não sabia se continuava pedalando ou se parava... E aquele acúmulo de energia dentro de mim começou a se desprender em forma de lágrimas... E a vista foi ficando embaçada e a garganta e o peito sufocados... Mas ao mesmo tempo eu sorria... Sim, eu sorria... E pedalava e sorria e lacrimejava... Como numa epifania, aquele foi meu grande momento... O momento em que me descobri viva... Pequena diante daquela emoção; grande por me sentir pulsante... Um pontinho insignificante debaixo daquela imensidão de azul e dourado; um ser em êxtase tomado por tanta energia...  
São momentos assim que nos fazem mais humanos, desde que não estejamos imersos na engrenagem do dia a dia, robotizados pelo universo capitalista. Desde que tiremos alguns minutos para apreciar o que há de belo num mundo em que insistimos em ver o lado feio. Que nos momentos de transição (2012-2013), nossa retrospectiva não selecione apenas nem majoritariamente os acontecimentos negativos. É preciso ver os saldos positivos. É preciso se sentir humano, se fazer humano, se permitir SER humano... Sentindo o raio do sol sobre a pele, inebriando-se com o azul do céu de verão, refrescando-se com a brisa marítima, sentindo os pés afundarem-se na areia úmida, recém-beijada por uma onda que se esquiva de nossas passadas. É preciso ouvir os sorrisos das crianças, ler os bons-dias dos estranhos, tocar o cantar dos pássaros... É preciso um instante de silêncio, de solidão, de imersão egoísta em nosso ser: sem máquinas, sem computadores e celulares, sem redes sociais, para que momentos tão todo-dia, tão todo-mundo, tornem-se tão-únicos e tão-íntimos. Para  que o homo sapiens, tão dominador de tudo, tão dominador de todos, seja capaz de se entregar às emoções e deixar, que seja por minutos apenas, ser dominado pela humanidade que há em si.
Um amanhecer.
Uma menina.
Uma bicicleta.
 E um dourado sorriso molhado pelo caminho...

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

POR QUE CORREMOS? (Texto publicado no jornal A gazeta (Vitória), na coluna "Pé no chão", de Julius Carvalho)




Por que eu corro? Por que você corre? Por que nós corremos? Não, este não é um texto sobre conjugação verbal... Não é a professora de Português que há em mim que escreve... Quem escreve é a corredora e, por isso, este é um texto sobre paixão, sobre adrenalina, sobre endorfina... Sobre este vício que nos deixa “ligados”,  que nos faz madrugar, que nos leva de um lugar a outro para treinos e provas,  que às vezes nos faz viajar 500 km / 1000 km para correr 10 km / 20 km.... É um texto para falar de entrega, de amizades, de prazer... Falar de superação, objetivos, diversão... Expectativas, encontros, abraços e sorrisos... Falar de suor, de músculos cansados, de grito eclodindo do fundo do peito... É um texto para falar de identidade...
Por que eu corro? Porque a corrida se entranhou em mim de tal modo, que se fundiu tanto a meus “eus”, que falar de mim é necessariamente falar da corredora... Por que você corre? Se você está lendo esta página, acredito não ser por acaso... Deve haver em você um pouquinho (ou muito, “muitão”  mesmo) dessa identidade que é tão minha e de tanta gente... Por que nós corremos? Ora, porque sem a corrida nós não somos mais tão completos, não somos mais tão plenos, não somos mais tão felizes....